A TRANSFERÊNCIA
DA CORTE PARA O
RIO DE JANEIRO
• Portugal tentava manter sua independência e a
integridade de seu império colonial em meio à
guerra que opunha França e Inglaterra. Os franceses
pressionavam a Coroa portuguesa para que aderisse
ao Bloqueio Continental imposto por Napoleão
Bonaparte. A França pretendia que Portugal fechasse
seus portos aos navios ingleses. Por sua vez, a
Inglaterra, com quem Portugal mantinha uma
tradicional aliança, exigia que Lisboa ignorasse as
ameaças de Napoleão e liberasse o comércio
colonial aos navios ingleses.
• Em meados de 1807, Napoleão deu um ultimato ao
príncipe regente Dom João: ou Portugal aumentava
sua participação na liga anti-inglesa ou o reino seria
invadido. Entre ver o reino invadido e perder as
colônias, a Coroa portuguesa optou por salvar o
Império, aliando-se aos ingleses.
• Em novembro de 1807, o exército de Napoleão
cruzou a Espanha e invadiu Portugal. Diante da
chegada das tropas francesas a Lisboa, a Família
Real, grande parte dos funcionários do Estado e uma
imensa comitiva, composta de cerca de 10
mil pessoas, embarcaram em 36 navios portugueses
rumo ao Rio de Janeiro. Sob a proteção da frota
inglesa, depois de uma breve estada em Salvador,
dom João chegou ao Rio de Janeiro em 7 de
março de 1808.
REFORMAS INSTITUCIONAIS
E ESTRUTURAIS
• Capital colonial de um vice-reino português desde 1763, a cidade
do Rio de Janeiro se destacava em muitos aspectos em relação a
outras cidades da América portuguesa e possuía um razoável
sistema de defesa, além do maior contingente militar da Colônia.
Mesmo antes da vinda da Corte, o Rio de Janeiro já era uma das
sedes da esquadra da Marinha de Guerra portuguesa e
apresentava uma economia bastante ativa, contando com uma
forte elite comerciante.
• Em 1808, o Rio de Janeiro ainda conservava o aspecto de uma
cidade colonial. Suas ruas eram estreitas e sem calçamento, e
predominavam as casas térreas, construídas sem nenhum
planejamento. A cidade era extremamente insalubre: o sistema de
distribuição de água era insuficiente e o de esgoto era
praticamente inexistente. Os pântanos, brejos e outros espaços
alagadiços encontravam-se espalhados pela cidade e eram grandes
geradores de doenças e epidemias que frequentemente atingiam a
população.
• A quantidade de moradias que havia na cidade era insuficiente
para abrigar o número de pessoas que chegou de Portugal com a
Família Real. Em consequência disso, muitos moradores do Rio de
Janeiro – principalmente os mais ricos – foram desalojados de suas
residências para dar espaço à Família Real e à Corte portuguesa.
• A estrutura da cidade não satisfazia às necessidades de uma
nobreza acostumada com o luxo de palácios e castelos
portugueses. Muitas obras e melhoramentos urbanos – como o
calçamento de ruas, o aterramento das áreas alagadiças e os
investimentos no sistema de água, de esgotos e de iluminação –
foram realizados a pedido de Dom João.
• Além disso, para administrar o Império a partir do Brasil, a
monarquia portuguesa necessitou implantar alguns órgãos
de Estado na cidade do Rio de Janeiro, como os tribunais
superiores e a Intendência Geral da Polícia, que cuidava da
segurança pública.
• O príncipe regente também criou diversas novas
instituições, como o Real Teatro São João, a Escola Real de
Ciências, Artes e Ofícios, a Real Biblioteca (atual Biblioteca
Nacional) e o Museu Real. Outra grande contribuição
para o Brasil foi a instituição da Imprensa Régia – até
então não eram publicados jornais nem livros na Colônia.
AS MUDANÇAS NA
ECONOMIA BRASILEIRA
• O estabelecimento da Corte portuguesa no Rio de Janeiro e a ocupação de
Portugal pelo exército francês mudaram radicalmente as relações entre o
Brasil e o Império português.
• Dom João decretou, em 28 de janeiro de 1808, a abertura dos
portos brasileiros a todas as nações amigas, isto é, àquelas que não fossem
aliadas à França. O comércio brasileiro passava, então, a funcionar
independentemente de Portugal, o que promoveu também mudanças na vida
e nos hábitos dos brasileiros.
• Em 1808, Dom João criou o Banco do Brasil, para administrar as contas do
governo e oferecer crédito aos empreendedores. Adotou-se uma política de
incentivo à industrialização, com a revogação do alvará de 1785, que proibia
as manufaturas na Colônia. A própria Coroa introduziu a siderurgia, com a
criação, em 1810, da Real Fábrica de Ferro de São João de Ipanema, nas
proximidades de Sorocaba, em São Paulo.
Tratado
de
Comércio
e
Navegação
• A dependência em relação à indústria inglesa
aumentou com a assinatura do Tratado de
Comércio e Navegação,
em 1810. Ao estabelecer uma tarifa de 15%
para os produtos ingleses desembarcados nos
portos brasileiros, o tratado beneficiava a
Inglaterra, pois os produtos dos demais países
eram taxados em 24%.
• Os anos 1815 e 1816 foram de grande seca nas capitanias brasileiras ao norte da Bahia. A
falta de chuvas arruinou parte das lavouras, o que prejudicou a produção e trouxe fome à
população mais pobre. Na cidade de Recife, centro da capitania de Pernambuco e do
comércio local, a situação econômica se agravou ainda mais por causa da queda dos
preços internacionais do açúcar e do algodão e do incômodo domínio comercial
praticado pelos portugueses.
• Apesar dessa situação, o governo sediado na cidade do Rio de Janeiro promoveu o
aumento dos impostos na região de Pernambuco, visando custear a campanha militar de
conquista da Banda Oriental (Uruguai), as obras públicas e os gastos da Corte, além do
pagamento aos funcionários públicos.
• Não demorou para que setores das elites pernambucanas, unindo militares, padres,
comerciantes, advogados, proprietários de terras e intelectuais, começassem a se
organizar contra a dominação portuguesa. O movimento revolucionário deflagrado em
Recife, em março de 1817, destituiu o governador e proclamou a independência
e a República de Pernambuco. As camadas mais pobres apoiaram a revolução, movidas
pelo ressentimento que tinham contra a exclusividade dos portugueses no comércio. As
capitanias da Paraíba, do Rio Grande do Norte e do Ceará também aderiram ao
movimento.
• Em 29 de março do mesmo ano, o governo provisório da República de
Pernambuco anunciou a convocação de uma Assembleia Constituinte e
proclamou uma lei orgânica que estabelecia, entre outros pontos, a igualdade
de direitos dos cidadãos e a liberdade de expressão. Haveria também
liberdade de culto, apesar de o catolicismo ser mantido como religião oficial.
• Apesar de todas essas reivindicações, as garantias de liberdade
não contemplariam toda a população. Ao contrário, essas garantias serviriam
para poucos, pois os líderes revolucionários não pretendiam abolir a
escravidão.
• A Coroa enviou tropas e navios de guerra para cercar Recife e prender os
conjurados, que não puderam resistir e se renderam em maio de
1817. Seguiram-se as prisões e execuções dos líderes do movimento.
• Apesar de derrotada, a Revolução Pernambucana mostrava às autoridades
régias que a independência e a República haviam ganhado popularidade entre
a população brasileira.
REVOLUÇÃO LIBERAL DO PORTO
• A ausência do rei em Portugal e o fim do monopólio do comércio com o Brasil
representaram a ruína da economia portuguesa. Muitas pessoas acreditavam
que, terminada a guerra com a França, a Corte retornaria para Lisboa e o
Brasil voltaria à condição de colônia.
• Napoleão foi deposto definitivamente em 1815 e dom João não dava sinais de
que iria retornar a Portugal nem de que a abertura dos portos brasileiros seria
revogada. A elevação do Brasil à categoria de Reino Unido alarmou ainda mais
os portugueses da Europa, que viram a autonomia brasileira juridicamente
consolidada. Além disso, os portugueses eram obrigados a enviar ao Brasil
recursos dos impostos e tropas do exército para auxiliar na guerra da Banda
Oriental, na repressão à revolução em Pernambuco e no custeio dos gastos da
Corte.
• Para muitos portugueses, a solução dos males viria com a extinção do poder
absoluto do rei e a instauração de um regime que atribuísse poder de decisão
ao povo. A liberdade que pregavam era, porém, limitada. Assim como
no Brasil, muitos dos que lutavam pela liberdade do povo defendiam também
a escravidão. E em Portugal era comum que os liberais, adeptos do iluminismo
e defensores da individualidade, da razão e da igualdade,
exigissem a recolonização do Brasil, medida que consideravam necessária
para reativar a economia portuguesa.
O PORTO LIDERA A REVOLUÇÃO
• Em agosto de 1820, os liberais da cidade do Porto iniciaram um movimento que
ficou conhecido como Revolução Liberal de 1820. O principal objetivo dos
revolucionários era aprovar uma Constituição que deveria ser aceita por todos os
cidadãos portugueses, incluindo o rei, que estava no Brasil. Com isso, eles
pretendiam extinguir o absolutismo em Portugal, submetendo o rei às leis
elaboradas pelo povo. A regência, que governava Portugal em nome de Dom João
VI desde 1807, não teve meios de conter o movimento e acabou deposta em
setembro de 1820,com a adesão de Lisboa à causa liberal.
• Chegando ao poder, os liberais puseram seu projeto político em prática,
convocando assembleias populares – tradicionalmente chamadas de Cortes –
com o intuito de elaborar a Constituição.
• As Cortes se reuniram pela primeira vez em janeiro de 1821. Além de elaborar a
Constituição, elas funcionavam também como Poder Legislativo, governando o
reino em nome de todos os portugueses. Uma de suas determinações era trazer
dom João VI de volta a Portugal.